Caio Camargo apresenta o impacto da IA e do comércio agêntico durante a Expoagas 2026

A programação de palestras da 43ª Convenção Gaúcha de Supermercados (EXPOAGAS 2026) foi aberta oficialmente na manhã desta terça-feira (18), no Teatro do Centro de Eventos FIERGS, em Porto Alegre (RS), com apresentação do especialista em varejo Caio Camargo. O painelista abordou o tema “Varejo em tempos de inteligência artificial”, detalhando como a consolidação de algoritmos avançados e agentes autônomos está reformulando as jornadas de compra, os modelos operacionais e o comportamento dos consumidores. O evento, promovido pela Associação Gaúcha de Supermercados (AGAS), reúne milhares de executivos e fornecedores do setor alimentar no maior encontro do varejo do Cone Sul.

Durante a apresentação, Camargo analisou a transição da tradicional era da atenção para a nova era da confiança, na qual a qualidade da execução e as recomendações automatizadas passam a ditar a tomada de decisão do cliente. O especialista destacou ainda a ascensão do comércio agêntico, estrutura em que assistentes virtuais assumem o papel de intermediários nas transações comerciais.

Quatro eras de evolução do comércio e a chegada da recomendação

A trajetória do varejo moderno foi sintetizada pelo palestrante em quatro fases estruturais que demonstram o deslocamento do foco competitivo das empresas ao longo das últimas décadas. Entre 1950 e 2005, o mercado foi dominado pelo pilar da eficiência operacional, onde a capacidade de comprar em escala e reduzir custos determinava os líderes do setor. No período seguinte, de 2005 a 2020, a expansão do comércio eletrônico forçou a migração para a era da experiência, transformando os pontos de venda físicos em espaços de relacionamento e engajamento.

A terceira fase, compreendida entre 2020 e 2030, foca na conveniência extrema, exigindo a eliminação de atritos logísticos, maior velocidade de entrega e proximidade geográfica. A quarta fase, projetada a partir de 2030, será pautada pela recomendação preditiva, momento em que a inteligência artificial atuará como um conselheiro permanente do consumidor.

  • 1950 – 2005 (Eficiência): Foco em escala, controle de custos operacionais e preços competitivos.

  • 2005 – 2020 (Experiência): Digitalização das lojas e transformação do ponto de venda em ambiente de relacionamento.

  • 2020 – 2030 (Conveniência Extrema): Redução severa de atritos, otimização logística e agilidade nas entregas.

  • A partir de 2030 (Recomendação): Mediação direta de decisões de compra por algoritmos e agentes de inteligência artificial.

A tabela a seguir resume a evolução histórica dos modelos de negócio do varejo e suas variáveis centrais de competitividade:

Período Histórico Fase Dominante Fator Chave de Competitividade Papel da Tecnologia
1950 – 2005 Era da Eficiência Preço e ganho de escala Mecanização e automação básica
2005 – 2020 Era da Experiência Relacionamento e ambientação de loja E-commerce e canais digitais
2020 – 2030 Conveniência Extrema Logística rápida e atrito zero Integração omnichannel e dados
Pós-2030 Era da Recomendação Confiança e reputação algorítmica Agentes autônomos de IA e personalização

Transição do marketing de visibilidade para a gestão de reputação

A palestra evidenciou a perda de eficiência dos modelos tradicionais de publicidade baseados na simples exposição de marcas. Segundo o palestrante, a máxima do mercado de que a visibilidade garante vendas está sendo substituída pela exigência de validação prévia. Na era da confiança, a decisão de compra passa a ser filtrada por avaliações de usuários, reputação digital e pontuações de eficiência técnica.

A excelência na execução diária das lojas e nos canais digitais tornou-se a ferramenta de promoção mais eficaz para as redes supermercadistas. Falhas de estoque, atrasos na entrega ou atritos no atendimento comprometem a percepção da marca e afetam negativamente os índices de recomendação em plataformas digitais.

  • Fim da Era da Atenção: Redução do impacto da exposição publicitária passiva.

  • Início da Era da Confiança: Decisão de compra pautada por avaliações e dados de reputação.

  • Eficiência Operacional: A qualidade do serviço prestado como gerador de marketing orgânico.

O avanço do comércio agêntico nas decisões de consumo

O conceito de Agent Commerce foi apresentado como a transformação mais disruptiva do setor para os próximos anos. A modalidade baseia-se no uso de softwares que atuam em nome do cliente, realizando varreduras de mercado, comparando especificações de produtos, analisando preços e executando compras de forma autônoma.

Essa mudança altera as estratégias de vendas B2C, pois as empresas precisarão estruturar suas plataformas digitais para serem lidas e interpretadas por algoritmos de inteligência artificial, e não apenas por consumidores humanos. Onde a interface do usuário costumava ser o foco principal, a precisão dos dados de produto e a confiabilidade logística passam a ser decisivas.

Dimensão Comercial Varejo Tradicional Varejo Agêntico (Agent Commerce)
Tomador de Decisão Consumidor humano direto Agente de IA autorizado pelo cliente
Critério de Escolha Apelo visual e campanhas de marketing Dados técnicos, preço, prazo e reputação
Canal de Interação Ponto de venda ou e-commerce APIs e ecossistemas de integração de IA
Fator de Fidelidade Empatia de marca e hábito de compra Eficiência de entrega e índice de satisfação registrado

Mapeamento das forças permanentes dos pontos de venda físicos

Apesar da aceleração tecnológica, os dados apresentados durante a palestra indicam que 85% do faturamento global do varejo ainda é gerado em estabelecimentos físicos. Caio Camargo enfatizou que as lojas permanecem indispensáveis para a sustentabilidade financeira do setor, desde que desempenhem papéis estratégicos que o ambiente digital não consegue replicar.

A permanência e a atratividade do espaço físico dependem de cinco pilares centrais: capacidade de gerar confiança, resolução imediata de necessidades, senso de pertencimento comunitário, estímulo sensorial e promoção de descobertas de produtos. O equilíbrio entre esses fatores e as ferramentas digitais garante a retenção do cliente no longo prazo.

  • Confiar: Transparência no atendimento e segurança na escolha.

  • Resolver: Agilidade para solucionar demandas práticas do consumidor.

  • Pertencer: Criação de vínculo comunitário e identificação com o bairro.

  • Sentir: Experiência sensorial multicanal no ambiente da loja.

  • Descobrir: Estímulo à experimentação e apresentação de lançamentos.

Análise Brasil Inovador

As reflexões apresentadas por Caio Camargo na abertura da convenção supermercadista reforçam que a transformação digital no setor de abastecimento deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar um requisito de sobrevivência operacional. A transição para o comércio agêntico e a automação das escolhas de consumo exigirão que as redes varejistas reorganizem suas arquiteturas de dados, tornando estoques, preços e logísticas visíveis e confiáveis para sistemas de inteligência artificial.

No entanto, a força contínua das lojas físicas demonstra que a tecnologia não elimina a presença territorial, mas altera sua função estratégica. A médio e longo prazo, os operadores que prosperarem serão aqueles capazes de unificar a eficiência invisível dos algoritmos com experiências presenciais de alto valor, transformando a excelência operacional diária no principal vetor de atração e fidelização de clientes.